quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Ministro quer punição maior contra intolerância religiosa

"As religiões de matriz africana são as mais vulneráveis ao preconceito, principalmente por parte de outras religiões". A afirmação foi feita neste domingo (21) pelo ministro da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Edson Santos, para quem é necessário combater essa prática que, muitas vezes, se faz por meio da violência. Ele defendeu a criação de um dispositivo “claro”, que criminalize o preconceito por parte de outras religiões.

“Talvez seja necessário um dispositivo legal, que criminalize de forma muito clara essas manifestações religiosas, punindo seus responsáveis”, disse. “Na maioria das situações, os lideres não aparecem, mas seus seguidores são instrumentalizados e orientados a ofender e agredir as religiões, em especial, as de matriz africana”, completou o ministro.

Em entrevista à imprensa, antes de participar da Caminha pela Liberdade Religiosa, em Copacabana, no Rio de Janeiro, o ministro Edson Santos disse que a legislação atual não é aplicada com rigor. Mas, ponderou que a intolerância é praticada por uma pequena parte da população. “Tenho certeza de que a sociedade de vários matizes se coloca de forma contrária e dura contra a discriminação”, disse.

Atualmente, a maioria dos crimes de preconceito religioso no país são enquadrados no Artigo 208 do Código Penal, que estabelece detenção de um mês a um ano, ou multa - que pode ser aumentada em até um terço, no caso do emprego da violência -, para os casos de intolerância, como o dos jovens que destruíram um centro espírita no Rio, em junho passado.

No entanto, muitas lideranças de religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé, pedem para que os casos de preconceito contra fiéis ou desrespeito a templos e imagens sejam julgados sob Lei Caó, que pune com reclusão de um a três anos, além de multa, quem praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, etnia ou religião.

Fonte: Agencia Brasil / Foto: Januário Garcia

Mais de dez mil pessoas caminham pela liberdade religiosa em Copacabana - Nem chuva, nem frio, só Axé e Fé.

Por: Miro Nunes
Jornalista / Membro da Cojira-Rio


Nem o frio trazido pela chuva fina que caia nesta manhã de domingo afugentou as quase dez mil pessoas que participaram hoje (21) da caminhada em defesa ao direito à liberdade de culto na orla de Copacabana. Sob o som das palavras de ordem "Eu tenho Axé. Eu tenho Fé!", representantes de várias religiões, intelectuais, artistas e políticos partiram da Praça do Lido, ponto de concentração, e estão seguindo até o posto seis.

No primeiro dos dois carros de som, o ministro Edson Santos, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em discurso, pontuou a importância do diálogo entre as religiões e disse que irá entregar ao Presidente da República as principais reivindicações contra a intolerância religiosa em prol de ações de governo mais contundentes. O advogado e, Luiz Fernando Martins da Silva, enfatizou que as pessoas que se sentissem ameaçadas ou agredidas pelo fanatismo devem procurar as autoridades, pois eles estão aptos a dar apoio às denúncias: "a liberdade religiosa e o direito de seguir qualquer credo estão assegurados pela Constituição Federal, que o maior documento jurídico do país. Então devemos acionar o Ministério Público, o Judiciário, as autoridades governamentais para assegurar os nossos direitos constitucionais".

Entre as inúmeras autoridades presentes à manifestação alguns destaques são fundamentais, como a presença do ex-senador Abdias Nascimento (que mesmo com a saúde fragilizada mostrou o vigor de sua energia); o ex-deputado e autor da lei que leva seu nome, o jornalista Carlos Alberto Caó. Vários candidatos em plena campanha eleitoral participaram do evento, mas foram convidados pela organização a se posicionarem ao final da marcha, o que foi aceito sem maiores problemas.

O protesto pacífico, que acontece em várias capitais brasileiras, integra as comemorações ao Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. A data oficializada pela Lei nº 11.635, de 27 de dezembro de 2007, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e está sendo comemorada pela primeira vez. O Código Penal prevê prisão de um mês a um ano ou multa para quem comete esse crime. A pena pode ser acrescida de até um terço no caso de haver violência.

A "Caminhada em defesa da liberdade religiosa" é uma ação que integra a campanha "Liberdade religiosa, Eu tenho Fé!", capitaneado pela Comissão de Combate a Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro que envolve distintas organizações: mulheres; indígenas, ciganos; cristãos; muçulmanos; judeus; bahais; orientais; filosóficos; grupos culturais; setores do Movimento Negro; organizações de direitos humanos; artistas, imprensa; políticos.

Teatro do Oprimido: Arte e realidade em discussão

Texto e fotos: Helciane Angélica
(Jornalista; Presidente do Anajô e integrante da Cojira-AL)



Entidades multiplicadoras do Teatro do Oprimido em Alagoas, integrantes e convidados participaram dos Diálogos Teatrais no domingo (21), no Teatro Linda Mascarenhas localizado no bairro do Farol. As atividades foram iniciadas com apresentação do projeto, dinâmicas interativas e uma roda de coco de roda para descontrair.


Na ocasião, quatro entidades multiplicadoras apresentaram os trabalhos produzidos, baseados em fatos verídicos e que utilizam material reciclado na infra-estrutura. As histórias são apresentadas no teatro-fórum, o público é convidado a interagir com as personagens, além de ser estimulado a propor soluções para os problemas em questão.


A primeira cena apresentada foi "Preconceito um, justiça zero" do Grupo Aldeia Jovem com adolescentes da grota Aldeia do Índio (Jacintinho), que abordaram a desigualdade social, agressão física e o descumprimento da lei contra a discriminação racial. O cenário, o enredo e a música foram desenvolvidos coletivamente.




Outro tema polêmico foi a homossexualidade e o conflito familiar, retratada na peça "Toda forma de amor vale amar" do SINDPREV. Conta-se a situação real vivida por uma das integrantes que descobre outra forma de amar, repudiada pela família é expulsa de casa e os amigos da igreja condenam como pecadora.


O grupo Quintal Cultural (Cambona) trouxe ao palco "O Linchamento", demonstrando um dos maiores problemas sociais que é a violência urbana, também promoveu a reflexão sobre os estereótipos impregnados nos conceitos de muitas pessoas: “negro + favela = bandido”.



Para finalizar, o público prestigiou e se comoveu com a produção "Toda criança tem direito de ser feliz" do Projeto Mundaú, coordenado pelo Grupo Revolucionarte, que demonstrou a dura realidade de muitas crianças que sofrem com a violência doméstica e a exploração.


A atividade foi encerrada com o lanche coletivo e a apresentação cultural da banda Guerreiros da Vila. O próximo encontro acontecerá na Mostra Alagoana, nos dias 11 e 12 de outubro, no Teatro Jofre Soares (Sesc-Centro).


Mais informações: (82) 8865-5520 (Helcias) / 9329-5922 (Andréia)
Veja outras fotos no blog do Anajô: www.anajoonline.spaces.live.com

Jacintinho, palco da cultura

Nos dias 19 e 20, o bairro do Jacintinho apresentou seu potencial artístico com a execução do III Festival de Cultura. A programação atraiu pessoas das mais diversas idades e garantiu, inclusive, a interação com outras comunidades.

Estiveram presentes artistas locais dos mais diversos ritmos e estilos, como: a herança histórica dos grupos folclóricos (coco de roda, baianas, bumba-meu-boi), a riqueza afro-cultural (hip hop, reggae, afoxé, dança-afro, capoeira), e também, apresentação de banda de rock, forró pé-de-serra e mpb (voz e violão).

A diversidade das atrações demonstrou a qualidade da organização e o interesse dos próprios grupos que se inscreveram para apresentar o trabalho desenvolvido diariamente. “É um evento que de fato faz com que as pessoas levantem a auto-estima, e que queriam fazer cultura mesmo com todas as dificuldades”, afirmou Sirlene Gomes, integrante da comissão organizadora.

Alberto Jorge, Presidente da Comissão de Defesa das Minorias da OAB-AL, elogiou a iniciativa e destacou a importância das manifestações culturais em todos os bairros de Maceió. “Nós precisamos resgatar em todos os bairros os valores culturais. E o Jacintinho sempre vem demonstrando para a sociedade alagoana que é um bairro de jovens, contra a violência e que o movimento cultural é o melhor caminho para tirar a juventude das drogas e da violência”, afirmou.

O evento foi realizado pela Associação Comunitária Cultural e Esportiva Juventude, em parceria com o Centro de Estudos e Pesquisa Afro-Alagoano Quilombo e apoio da Secretaria Estadual de Cultura, Fundação Municipal de Ação Cultural, Cefet-AL, Proex/Ufal e microempresários.

Observação: Confira as fotos e outras informações do evento no site www.accej.com.br

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Debate pela Diversidade em Alagoas


O Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial realizará o 1º Debate Democrático Pela Diversidade: “Meu Voto tem Cor. A Cor do Compromisso Cidadão”. A atividade recebe o apoio da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas, acontecerá na segunda-feira (22), das 9 às 12h, no Cine Sesi Pajuçara.

Para mediar o debate foi convidado o jornalista Flávio Gomes de Barros. Já confirmaram presença os candidatos Mário Agra (PSOL), Solange Jurema, (PSDB), Judson Cabral (PT) e Manoel de Assis (PSTU).

Busca possibilitar espaços político-afirmativos para discussão da temática racial, a construção participativa e consciente de políticas públicas para a área da saúde, educação, emprego e renda. Os candidatos terão a oportunidade de expor suas propostas de inserção e benefícios à população afro-maceioense nos planos de governo.

Aberto ao público – estudantes, educadores, sindicalistas, representantes do movimento negro e organizações da sociedade civil que lidam com a temática.


Outras informações: (82) 3315-1268 / 8815-5794 / 9924-6549.

Caminhada Pela Liberdade Religiosa - RJ


Os crescentes casos de discriminação às religiões de matriz africana ocorridos no país motivaram a criação de uma Comissão de Combate à Intolerância, na cidade do Rio de Janeiro. No domingo (21), será realizada a Caminhada Pela Liberdade Religiosa na orla de Copacabana.

A atividade contará com a presença de ativistas, religiosos, artistas, estudantes (de várias partes do Brasil), que juntos buscam defender o direito a liberdade de culto e o respeito étnico-racial.

Saiba mais: www.eutenhofe.org.br.

Diálogos teatrais no domingo

As entidades multiplicadoras do Teatro do Oprimido em Alagoas e seus integrantes participarão de um encontro neste domingo (21), a partir das 9h, no Teatro Linda Mascarenhas (ao lado do Instituto Zumbi dos Palmares - IZP e do CEPA) localizado na Av. Fernandes Lima, no bairro do Farol.

Na ocasião serão discutidos os avanços das ações no Estado, e o público poderá conferir a interagir na apresentação das peças. Estão confirmadas: “Guerreiros da Vida” do Ponto de Cultura São Bartolomeu; "Toda forma de amor vale amar" do SINDPREV; "Toda criança tem direito de ser feliz", do Projeto Mundaú - Grupo Revolucionarte; "Preconceito um, justiça zero" do Grupo Aldeia Jovem (AISCJ); e Grupo Teatral Sol Nascente com a cena "O Linchamento".

Teatro do Oprimido

O Teatro do Oprimido tem quase quatro décadas de existência, foi criado por teatrólogo e escritor Augusto Boal. É praticado em cerca de 70 países e em 19 estados brasileiros. Em Alagoas encontra-se no seu primeiro ano com 40 multiplicadores.

O método reúne exercícios, jogos e técnicas teatrais que objetivam a desmecanização física e intelectual de seus praticantes. A democratização do teatro estabelece condições práticas para que o oprimido se aproprie dos meios e amplie suas possibilidades de expressão, estabelecendo uma comunicação direta, ativa e propositiva entre espectadores e atores.

Dentre as técnicas, a mais praticada em todo o mundo é o teatro-fórum. O espetáculo baseado em fatos reais, no qual personagens oprimidos e opressores entram em conflito de forma clara e objetiva na defesa de seus desejos e interesses.

Com uma metodologia lúdica, atraente, e de fácil aplicação, possui potenciais extraordinários de multiplicação, onde não exige custos altos de investimento e alcança resultados eficientes. Trata-se de um instrumento fundamental para o desenvolvimento de programas sócio-culturais em áreas com recursos escassos.

Contatos: (82) 8865-5520 (Helcias) / 9329-5922 (Andréia)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Festival de Cultura do Jacintinho

Pela terceira vez, o bairro do Jacintinho terá o Festival de Cultura. Nos dias 19 e 20, a partir das 18h, acontecem na Rua Manoel Porciúncula (esquina com a Avenida Coronel Paranhos) apresentações folclóricas e de grupos que expressam a riqueza afro-cultural.

O evento é uma promoção da Associação Comunitária Cultural e Esportiva Juventude, em parceria com o Centro de Estudos e Pesquisa Afro-Alagoano Quilombo, Fundação Municipal de Ação Cultural, microempresários e moradores.

Essa é uma ótima oportunidade para exaltar o trabalho de artistas locais e levar entretenimento para as pessoas da periferia. Veja a programação:

Sexta-feira (19/09)
· LIGA DO BUMBA-MEU-BOI DE MACEIÓ
· GRUPO DE RAP REFLEXÃO NORDESTE
· GRUPO DE BAIANA FLOR DE LIZ
· BANDA DE ROCK DIA 5
· BANDA DE REGGAE REPÚBLICA NEGRA
· BANDA BANDA AFRO MANIA
· OJU OMIN OMOREWA – DANÇA AFRO
· COCO-DE-RODA DA VILA DE PESCADORES
· GRUPO DE HIP HOP QUESTÃO DE ALMA

Sábado (20/09)
· EDGAR DOS 8 BAIXOS, MINHOCÃO DO FÓRRO E CHAU DO PIFE
· FEDERAÇÃO ALAGOANA DE CAPOEIRA - FALC
· BANDA CIVILIZAÇÃO ROOTS
· AFOXÉ ODÔ IYÁ
· BANDA GUERREIROS DA VILA
· IGBONAN ROCHA- VOZ E VIOLÃO
· GRUPO FÊNIX NEGRA
· GRUPO DE DANÇA DA UFAL (DÉBORA E SÁVIO)
· GRUPO SHOW DA ESCOLA DE SAMBA ARCO-ÍRIS

Contatos:
Gilson Félix: (82) 9146-7762
Denivan Costa: (82) 8858-6771 / denisangola@gmail.com
Viviane Rodrigues: (82) 3033-2093 / vi_magnifica@hotmail.com

Nota Pública: "Imobiliária Palmares"

Maria Bernadete Lopes da Silva
Diretora de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro



Chama a atenção a intensidade dos ataques que vêm sendo articulados pela mídia contra as recentes conquistas quilombolas. Em caso recente, a Fundação Cultural Palmares foi classificada pelo jornalista Marcos Sá Corrêa, em matéria veiculada no site O ECO, no dia 21/08/2008, "como imobiliária".


Alguns pontos devem ser esclarecidos.


Em primeiro lugar, a Fundação Cultural Palmares não define a posse, ocupação ou a titulação das terras das comunidades de quilombos. Tal competência fica a cargo do INCRA, que atua a partir de um meticuloso levantamento, denominado relatório etno-histórico, socioambiental, cultural e econômico, com um cuidadoso estudo realizado por equipes diversas de especialistas, compostas por historiadores, antropólogos, sociólogos, agrônomos e outros, devidamente qualificados. Os relatórios são apresentados publicamente e podem ser contestados. Portanto, não é a Fundação Palmares que define qual e quanta terra é de domínio de cada comunidade.

Os territórios quilombolas são áreas que têm um caráter diferente das propriedades fundiárias comuns. Não se trata de fazendas, sítios ou chácaras de propriedade individual. As comunidades regularmente tituladas possuem "territórios" definidos em função do uso comunitário da terra e dos bens que ela produz, podendo ser esses bens ligados à cultura material, tais como: plantações, áreas de extrativismo, criação e moradia, ou ainda; áreas de bens ligados à cultura imaterial, tais como: sítios de invocação religiosa e de práticas ancestrais.

Muitas áreas são utilizadas sazonalmente, podendo servir em um período do ano para pesca, caça, coleta de cipós, bambus etc. Isso não implica um uso exclusivo e permanente da terra, diferentemente daquela utilizada regularmente por proprietários ligados à produção comercial ou à agricultura doméstica.

Em segundo lugar, temos um problema conceitual que não está bem esclarecido pela reportagem do senhor Marcos Sá. O que é afinal uma comunidade de remanescentes de quilombo?

Esse talvez seja o maior problema para que possamos entender a amplitude da questão, pois estamos acostumados ao conceito histórico e "engessado" de quilombos, definido pela primeira vez em meados do século XVIII pelo rei de Portugal, dom José II, ao afirmar que quilombos eram redutos de cinco ou mais negros, fugidos onde se encontrassem ou não, fogos e pilões. Daí para os tempos atuais, a palavra quilombo, de origem bantu e com significado diverso daquele que foi fixado na história do escravismo no Brasil. Os quilombos brasileiros têm o seu protótipo definido a partir do clássico modelo de Palmares, mas nunca foram amplamente estudados até período muito recente de nossa história.

Pouco soubemos acerca dos quilombos coloniais e imperiais, uma vez que esses só passavam a ser registrados pelos poderes públicos (leia-se brancos) quando começavam a causar problemas ou eram abatidos pelas autoridades como foi o caso do próprio Palmares.

Acontece que por se tratar de uma sociedade formada por pessoas excluídas socialmente do processo de organização do Estado, marginalizados ou escravizados; os quilombos procuravam distanciar-se ao máximo dos centros onde residiam os senhores escravistas e suas forças policialescas, capazes de causar pesados danos às populações quilombolas. Muitos quilombos ficaram tão isolados que só se teve notícia deles muitos anos após a Abolição, em momentos de avançada penetração da sociedade rumo ao interior do país. Outros têm sido descobertos recentemente.

Contudo, desde a Abolição, o Estado Nacional brasileiro passou a ignorar a questão dos quilombos, como se o problema das comunidades formadas por negros egressos ou foragidos da escravidão simplesmente houvessem se "evaporado" com a assinatura da Lei Áurea, que na prática pouco representou além da certificação de uma libertação tardia e evitada pelo Estado até o último instante.

Em 1988, com a promulgação da atual Constituição, a questão dos remanescentes de quilombos retomou vigor e passou a ser novamente parte de nossa pauta de debates e das medidas de reparação sociais do Estado para com uma imensa parcela de seus cidadãos.

A questão dos quilombos permaneceu omissa e ignorada dos estudos sociais e históricos por muito tempo. Isso levou a equívocos de interpretações, característicos de pessoas com pouco trato na área, como é caso do jornalista em questão, seguro de que o termo quilombolas ou remanescentes de quilombos não se aplica à comunidade assentada em área onde, posteriormente foi criado o Parque do Jaú. Essa visão leiga e amadora da situação é típica dos que se acomodaram à definição conceitual do ensino de História do Brasil, ministrado nas séries do ensino fundamental e médio. Para a maioria, quilombo seria apenas o núcleo de povoamento negro fundado na resistência armada ao escravismo. Essa definição não leva em conta uma série imensamente variada de outras situações, onde comunidades de negros se formaram em momentos diferentes e em condições diversas, mas mantiveram algumas características básicas, como a idéia da resistência, as especificidades culturais e a identidade social coletiva específica.

Quando da Abolição, por exemplo, muitas famílias e grupos de escravos ficaram sem destino, liberados dos trabalhos escravos, foram expulsos por seus antigos proprietários e vagaram por lugares distantes, terras devolutas e em locais ermos fundaram novas comunidades, diferenciadas em sua estrutura, produtividade, hierarquia social e tradições. Essas comunidades se estabeleceram em terras que ficaram conhecidas como "terras de pretos". Na maior parte dos casos, tratou-se de terras devolutas ou não exploradas, algumas vezes muito distantes de qualquer outro núcleo de povoamento, ou, e outros casos, nas imediações de antigos núcleos urbanos e, hoje, portanto, inseridas em pleno contexto de diversas cidades, o que explicaria a existência dos quilombos urbanos.

No caso específico da Comunidade de Remanescentes de Quilombo do Parque do Jaú, no Amazonas, alega-se que esta comunidade se formou em 1907 e que, portanto, não seria possível tratar-se de uma comunidade de remanescentes de quilombo. Ora, sabemos que comunidades de negros formaram-se ao longo de diversos períodos no intuito de resistir às pressões de senhores e proprietários, garantir seu acesso à terra e à sobrevivência de seus valores culturais, tradições e memória social coletiva. Isso ocorreu durante a escravidão e mesmo após a escravidão.

Assim, uma comunidade fundada em 1907, no Amazonas, composta por negros, dotada de identidade sociocultural diferenciada, que se reconhece a si mesma como remanescente de quilombolas atende ao que está estabelecido no decreto nº 4.887, de 2003, que reinterpreta, de forma atualizada e contemporânea, a definição de comunidades de remanescentes de quilombos.

Para se ter uma idéia, basta lembrar a antiguidade da residência dessa comunidade no local onde muito mais tarde foi criado um parque, provavelmente por técnicos que esquadrinharam um mapa, sem nunca tomarem conhecimento da pré-existência de comunidades tradicionais nessas áreas, calculando, no máximo, que, caso elas existissem, seria possível, fácil e viável o seu remanejamento. Tudo em nome do ecológico.

Vale ressaltar que, em muitos desses casos, as autoridades ambientais não se deram ao trabalho de sequer pensar em remanejamento dessas populações, como atesta o trágico caso da criação, em 1982, da REBIO Guaporé, em Rondônia, que extinguiu diversas comunidades de negros e de índios que viviam há séculos na área em que a reserva biológica foi implantada. Somente uma única comunidade de negros remanescentes de quilombos permaneceu e ainda luta por seu direito constitucional de permanecer na terra em que seus antepassados se instalaram ao fugirem dos horrores da escravidão a partir do século XVIII. No caso em pauta (Comunidade de Santo Antônio do Guaporé), não houve plano de remanejamento, de reinstalação ou de indenização. Todos os moradores seriam expulsos indo para onde bem entendessem, como aconteceu com as demais comunidades que viviam na área, como o povoado do Limoeiro, Bacabalzinho e outras. Todos foram expulsos, ninguém foi reassentado, ninguém foi indenizado.

Hoje não se questiona o reassentamento, isso é inviável, provoca profundos abalos na comunidade, fragmenta, divide, anula identidades, provoca dispersões. Basta que cada um se coloque na condição do reassentado ou do expulso de suas terras e de suas casas.

Ainda é importante salientar que essas mesmas comunidades que as autoridades ambientais insistem em remanejar ou, simplesmente, expulsar das áreas que foram redefinidas como de preservação ambiental, sempre foram as principais guardiãs das matas, rios, restingas, mangues e praias das regiões em que viveram. Não é à toa que se quer transformá-las em áreas de preservação, pois, via de regra, são áreas bem-conservadas, justamente porque foram mantidas e guardadas por populações que não tiveram como estratégia de sobrevivência a devastação dos ecossistemas das regiões em que vivem.

Assim, ao nos posicionarmos na Fundação Cultural Palmares, de forma inequívoca e inquestionável a favor dessas comunidades, claramente caracterizadas como remanescentes de quilombos, nos colocamos a favor do meio ambiente, pois tais populações sempre o preservou. Posicionamo-nos pela vida, tanto dos ecossistemas, quanto de toda a sociedade, mas, principalmente da vida das populações remanescentes de quilombos, historicamente excluídas, perseguidas e aviltadas, e que, atualmente, passam por outro tipo característico e novo de racismo, o racismo ambiental.

É pena que profissionais de gabinete, que conhecem a realidade do país por meio de imagens, mídia, reportagens ou outros meios, não se prontifiquem a conhecer essas mesmas realidades "in loco", passando pela singular experiência de conhecer o dia-a- dia e os modos de vida de tais populações, antes de propor seu remanejamento, sua expulsão ou remoção.

A Fundação Cultural Palmares deplora a superficialidade dos conhecimentos do jornalista Marcos Sá Corrêa acerca das comunidades de remanescentes de quilombos, especificamente no caso da Comunidade do Jaú, no Amazonas. Reafirma que não se caracteriza "como uma imobiliária", que tal "adjetivo", mais uma vez evidencia a superficialidade do conhecimento do repórter acerca dos trabalhos realizados por esta instituição.

Por fim, reafirmamos nosso compromisso com as populações de remanescentes de quilombos de todo o país e lembramos que, embora já se tenham passado 120 anos da Abolição formal da escravidão no Brasil, ainda falta uma longa caminhada para que a população afro-descendente seja inserida de forma plena nos conceitos de cidadania, e isso inclui o respeito às populações quilombolas e ao seu modo de vida e ao lugar onde sempre viveram. Lutamos pela terra que é de todos e por aquela que, historicamente deve ser certificada em nome das comunidades que a mantiveram, ocuparam, trabalharam e protegeram.

Dessa forma, não só o decreto nº 4.487/03, que garante o direito à autodefinição das comunidades quilombolas, assim como também, a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, por meio do decreto n.º 6.040, de 07 de fevereiro de 2007, e a Convenção n.º 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário por meio do decreto legislativo n.º 143, de 20 de junho de 2002, e promulgada pelo decreto n.º 5.051, de 19 de abril de 2004, que garante o direito à auto-identificação de comunidades quilombolas, assim como o direito à propriedade da terra, determinado pelo Art. 68 do ADCT da CF/88.

E por fim, a Advocacia-Geral da União também já se manifestou sobre o assunto em Parecer nº AGU/MC - 1/2006, aprovado pelo Excelentíssimo Senhor Advogado-Geral da União, na forma do art. 4º, inciso X e XI, da Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993, devendo, dessa forma, ser seguido o entendimento ali esposado pelos órgãos e entidades da Administração Federal, como transcrito a seguir:
"...Como se mostra evidente, a noção de quilombo não é das que se alcança por simples interpretação jurídica já que fortemente dependente de investigações, estudos e pesquisas na área da antropologia, sociologia e história sem as quais não se pode enunciar o exato sentido do preceito estudado. Mesmo sem tomar partido em qualquer das diversas correntes de interpretação antropológica ou sociológica, parece indisputável que quilombo é mais do que simples expressão de um certo território no qual em uma certa época alguns escravos ou ex-escravos, fugidos ou não, se reuniam para viver e resistir contra a recaptura ou contra a escravidão.

Ao contrário, a noção de quilombo que a Constituição parece ter adotado abrange, pelo seu próprio sentido e pelo princípio da máxima efetividade, certamente mais do que isto, pois, ao reconhecer aos remanescentes das comunidades de quilombos a propriedade das terras que ocupam, refere seguramente o universo representativo do fenômeno que originariamente aconteceu por obra da resistência, mas que também se desenvolveu ao longo do tempo formando comunidades com interesses e valores comuns, inclua aí a necessidade de resistir e lutar contra as discriminações decorrentes da escravidão..."
Fonte: Ascom da Fundação Cultural Palmares

Anajô realiza encontro de formação



Os integrantes do Centro de Cultura e Estudos Étnicos Anajô reuniram-se ontem (16), no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Alagoas (Sindjornal), para um encontro de formação sobre o papel do povo negro no desenvolvimento da humanidade. A atividade já foi uma prévia da contribuição político-cultural que a entidade realizará no mês da Consciência Negra.

A atividade teve início às 10h e se estendeu até às 16h. Pela manhã, foram exibidos slides sobre a trajetória do Anajô e sobre a contribuição do continente africano para o desenvolvimento da humanidade, encerrou-se com debate. Após o almoço teve dinâmica de integração e relaxamento. No restante da tarde, desenvolveu-se a tempestade de idéias sobre a importância do Quilombo dos Palmares, principais guerreiros, métodos de organização e aspectos culturais.

Valdice Gomes - Presidente do Sindjornal, integrante da Cojira-AL e também do Anajô - manifestou sua satisfação em participar da atividade. "Fico muito feliz de receber vocês e discutir esse tema de grande importância, principalmente aqui, na Casa da Comunicação. Precisamos fortalecer esses momentos e o conhecimento sobre a temática", disse.

A partir de outubro, a entidade iniciará suas ações de formação e identidade étnico-racial com estudantes, educadores, profissionais das mais diversas áreas por meio do projeto Palmares in loco (passeio étnico) na Serra da Barriga e cine-fórum em escolas.


Mais informações:
(82) 8831-3231 / 8865-5520